Não acho nada mal a escolha de Catherine Ashton para Alta Representante para a Política Externa da UE e Vice-Presidente da Comissão Europeia.
Porque é inteligente, competente e esforçada – não sendo muito experiente em todas as vertentes das relações externas da Europa, tem apreciável bagagem e bom desempenho como Comissária para o Comércio Internacional no último ano (veio para substituir o seu colega Peter Mandelson que bateu com a porta ao Presidente Barroso de um dia para o outro, sem sequer lhe dar umas semaninhas da notificação da praxe). Ashton herdou logo o espinhoso dossier das EPAS (Acordos de Parceria Económica com os países ACP) e conseguiu acalmar os ânimos africanos e caribenhos, que Mandelson arrogantemente atiçara. Estive em diversas reuniões com ela e admirei-lhe o tom cordato, o bom senso e o dominio que rapidamente revelava dos assuntos.
Catherine Ashton é Baronesa porque foi a certa altura enfiada pelo Partido Trabalhista na Câmara dos Lordes, como tantos, mas não passou a ter peneiras, é mesmo quase demasiado modesta, uma sólida “labour girl”.
E não acho nada mal também a sua escolha porque Catherine é mulher – e ao menos temos a sensibilidade de uma mulher entre os três lugares executivos de topo na UE (tudo indica que esta Comissão virá ao PE com menos mulheres que a anterior – e por isso sairá com menos votos, se sair aprovada).
Há dias, na delegação socialista portuguesa ao PE, discutimos as alternativas que se perfilavam, sabendo-se que o cargo de Alto Representante para as Relações Externas viria parar à nossa familia política. Além de Ashton, que já se adivinhava na calha uma vez que Milliband se auto-excluira, havia um outro candidato de peso (e de impressionante pensamento estratégico no domínio da PESC e da PESD), o italiano Massimo d’Alema – que Berlusconi apoiaria, apesar de ser um ex-comunista (os representantes de leste no Conselho Europeu é que o não enguliam). Houve quem dissesse que preferia o italiano por ter naturalmente sensibilidade mais coincidente com a nossa quanto às relações exteriores da UE.
Eu – que admiro o d’Alema – considerei preferível a Ashton. E não apenas por ela ser mulher: mas por ser britânica.
“After all”, os nossos velhos aliados “bifes” mandam nisto da politica externa da UE. Têm, sem dúvida, a melhor e mais poderosa máquina diplomática, que tudo sabe infiltrar (na Comissão, no Conselho, no PE), influenciar e frequentemente controlar. Para o bem e para o mal. E já que controlam – ora passem assumir o ónus de controlar!
E talvez assim consigamos trazer o Reino Unido a abraçar políticas europeias (por exemplo a PESD) cujo desenvolvimento tem travado, arrastando os pés. Com Catherine Ashton como Alta Representante para as Relações Externas e Vice-Presidente da Comissão Europeia, à cabeça do Serviço de Acção Externa da EU que está a ser montado. Como a Ministra das Relações Exteriores da UE – o cargo que a “Constituição para a Europa” previa e que Londres exigiu que fosse “desgraduado” no Tratado de Lisboa.